“Playback”: um filme sem a chama (e alegria) de Carlos Paião

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Vi há uns dias Playback, o filme sobre a vida de Carlos Paião, e devo confessar que saí bastante desiludido.

Tinha alguma esperança, mesmo depois de ver o trailer. Carlos Paião foi um dos artistas que mais gostei de ouvir quando era miúdo. Lembro-me bem do choque quando morreu, em 1988, num acidente de automóvel. Eu tinha sete anos e foi provavelmente uma das primeiras vezes em que percebi de forma muito concreta que alguém podia simplesmente desaparecer.

Talvez por isso esperasse tanto deste filme.

Carlos Paião era, para mim, uma combinação muito particular de talento, inteligência e alegria. As letras podiam ser românticas, brincalhonas, sarcásticas ou certeiras. Havia energia nele. Havia humor. E havia uma facilidade extraordinária para brincar com as palavras e com a música.

É precisamente essa energia que sinto que o filme nunca consegue captar.

Custa-me escrever isto porque sei que houve muita gente a trabalhar para que este filme existisse, e fico contente que exista. Mas o resultado parece-me pobre, por vezes tristonho, e demasiado distante da personalidade que associava a Carlos Paião.

Alguns dos problemas começam logo na execução. O som tem falhas evidentes. Muitos cenários parecem demasiado artificiais, quase sempre entre estúdio e teatro, provavelmente também por limitações de orçamento. A realização raramente consegue tirar partido das interpretações dos atores, sobretudo nos momentos em que seria importante ficarmos próximos das personagens.

Mas o maior problema, para mim, está no guião e nas escolhas da história que decidiram contar.

Há um foco enorme na relação entre Carlos Paião e a namorada que viria a ser sua mulher. Isso faz sentido, e alguns desses momentos funcionam. O problema é que o filme dedica muito tempo a conflitos e pequenos episódios dessa relação, enquanto deixa quase por explorar aquilo que mais me interessava perceber: de onde vinha aquele talento?

Como começou a brincar com palavras daquela forma? Como escrevia? Como treinava? Que influências teve quando era mais novo? Que tipo de miúdo era? Não há praticamente infância, memórias do passado ou sequer referências capazes de nos ajudar a compreender como surgiu o Carlos Paião que viria a escrever aquelas canções.

A história começa já com ele a estudar Medicina e a compor músicas. Um amigo envia uma cassete, as coisas começam a acontecer, e avançamos. Mas existe muito pouco sobre a construção daquele talento.

Até as entrevistas jornalísticas que aparecem são usadas de forma muito superficial. Pequenas frases, alguns clichés, pouco mais. E isso é especialmente frustrante porque existe muito material real de Carlos Paião que mostra exatamente aquilo que falta ao filme.

Basta procurar vídeos dele com Herman José ou com o grande Júlio Isidro, por exemplo. Há momentos extraordinariamente divertidos, em que se percebe como ele tinha rapidez, sentido de humor e enorme facilidade em brincar com música e palavras. Escreveu para muita gente, colaborou com artistas muito diferentes e tinha uma personalidade televisiva extremamente natural.

Lembro-me até de um vídeo que vi quando era miúdo, gravado em casa dele, com a mulher. Era divertido, descontraído, cheio de personalidade. Esse Carlos Paião quase não aparece aqui.

O filme tenta também introduzir momentos de musical. De repente, uma situação transforma-se numa música encenada quase como se estivéssemos num musical clássico. A ideia podia funcionar, mas o filme nunca assume verdadeiramente esse formato. Esses momentos acabam por parecer longos, pouco integrados na história e, algumas vezes, simplesmente aborrecidos.

E isso é talvez o mais estranho: um filme de cerca de 90 minutos parece durar três horas.

Mesmo tendo músicas muito bonitas de Carlos Paião.

O ator principal, Rafael Ferreira, tem algumas parecenças e, apesar de fisicamente ser bastante mais alto, consegue captar alguma coisa dele. Não totalmente a energia e positividade, mas há momentos em que resulta. A Laura Dutra, atriz que interpreta a mulher, que também participou em 1986, é talentosa e tem cenas emocionalmente fortes. O actor que faz de Peter também se safa bem (mas depois há um dos outros amigos rapazes do Paião no filme que só prejudica os outros… nada convincente).

O problema maior é que a realização (e o guião) raramente ajudam. Há momentos de tristeza em que a câmara parece quase indiferente ao que a atriz está a fazer.

Também há algumas personagens que, para mim, empurram o filme para a caricatura. A personagem de Albano Jerónimo, ligada à editora e à carreira de Carlos Paião, tenta ter um lado sarcástico e pomposo que raramente resulta. Mesmo em momentos mais sérios, a interpretação e a escrita mantêm um tom tão caricatural que às vezes provocam o efeito contrário ao pretendido.

A personagem da médica e professora de Carlos Paião sofre do mesmo problema (é mesmo a personagem que mais me irrita). A expressão, o tom, a forma como está escrita e interpretada parecem quase sempre iguais (nada contra a actriz Anabela Moreira… mas as opções aqui… falharam muito na minha perspectiva… que vale apenas e só isso). Tanto num momento que tenta ser divertido como num momento sério ou triste, há uma rigidez que transforma a personagem noutra caricatura.

Os momentos oníricos ou de sonho, usados para explicar a origem de algumas músicas, também me pareceram muito pouco conseguidos. São visualmente artificiais e, sobretudo, não nos ajudam verdadeiramente a perceber como aquelas canções nasciam. Fica tudo demasiado básico: ele tem uma ideia, escreve qualquer coisa num papel, nasce uma música.

E o Carlos Paião era seguramente mais interessante do que isso. Curioso como o filme até tinha o apoio da RTP mas nunca faz uso das imagens de arquivo da RTP para dar contexto e textura ao filme. É pena (claro desperdício).

Há aqui uma tentativa, talvez inevitável, de seguir o caminho de outros filmes portugueses sobre figuras da música. O filme das Doce pareceu-me muito mais conseguido nesse sentido, porque conseguia tirar energia das próprias personagens e da música. Não vi integralmente o filme sobre António Variações, mas dos clips que vi pareceu-me também mais capaz de captar a energia do artista.

Curiosamente, no dia seguinte vi na HBO Uma Quinta Portuguesa (da espanhola Avelina Prat), um filme passado em Portugal, com Maria de Medeiros e vários atores portugueses. É uma obra muito mais lenta no ritmo, muito mais próxima do cinema de autor, sobre um professor espanhol que acaba por mudar de vida e trabalhar como jardineiro numa quinta portuguesa.

Há muito menos ação. Há menos acontecimentos. Mas existe uma história simples, clara e um guião que sabe exatamente o que quer fazer. Funcionou muito melhor para mim (e viu-se melhor em 114 minutos do que os 90 min de Playback).

Também vi recentemente o trailer do novo filme de Ruben Alves, o realizador de A Gaiola Dourada. Mesmo através de um trailer sente-se imediatamente outra dinâmica, outro cuidado na imagem, no som e no ritmo. E dei por mim a pensar como teria sido interessante ver Ruben Alves pegar na história de Carlos Paião.

Não tenho nada contra Sérgio Graciano. Simplesmente acho que neste filme houve demasiadas escolhas de execução que não resultaram.

A doce ironia no meio de tudo isto é que estava na mesma pequena sala das Amoreiras onde vi o filme um grupo de jovens que bateram palmas no final. Fiquei surpreendido, mas depois percebi que eram amigos do Rafael Ferreira, que faz que Carlos Paião, que também estava por lá. E honra lhe seja feita, até se safa bem face às limitações já faladas (pergunto-me se a opção de o por a cantar com o que parecem dentes postiços — talvez para tentar mostrar o dente partido que o Paião tinha —, e que lhe deu um estilo sopinha de massa foi bem pensada…)

Sei que há pessoas que gostaram muito, e ainda bem. Os meus amigos e “críticos” Rui Pedro Tendinha (Expresso/TSF) e Rui Pedro Vieira (CM) gostaram. Para minha surpresa, até Vasco Câmara, do Público, parece ter apreciado o filme, quando normalmente é bastante exigente com este tipo de cinema. Eurico de Barros, no Observador, esteve bastante mais próximo da minha reação.

Eu simplesmente não consigo gostar.

Ainda assim, prefiro que o filme exista. Se levar pessoas a procurar Carlos Paião no YouTube, a ouvir novamente as músicas, a descobrir aquelas aparições televisivas incríveis e a perceber melhor o talento que ele tinha, já fez alguma coisa importante.

E talvez ainda haja espaço para outra coisa: um bom documentário sobre Carlos Paião. Há imagens suficientes, entrevistas, atuações e memórias capazes de mostrar a inteligência, a alegria e a energia que este filme, para mim, nunca conseguiu verdadeiramente encontrar.

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